07/08/2009

"Two Lovers" (James Gray, 2008)


Na entrevista que deu ao jornal Público, James Gray defendia que o que mais lhe interessa nos seus filmes será criar uma "autenticidade emocional". Em "Two Lovers", Gray cria uma história simples (sem deixar de ser interessante) e dá corpo a essa "autenticidade" através das performances magníficas que consegue reunir - Joaquim Phoenix em especial faz o melhor (e último?) papel da sua carreira. Mas o que mais me admira neste filme é a subtileza, o engenho, a maturidade de Gray por detrás da camera, com um trabalho de mise-en-scène espantoso que nos faz, de imediato, acreditar nas suas personagens e nesta história. Sabe trabalhar a imagem, o plano e o espaço, prova disso são os vários momentos que consegue cravar na nossa memória, bem à maneira dos nomes que parece citar (sem nunca cair na armadilha da cópia) desde Coppola a Hitchcock. Com uma filmografia tão curta (conta apenas com 4 obras da a sua assinatura), James Gray assume-se cada vez mais como um dos meus realizadores de referência no panorama actual do cinema.

"La Paura" (Roberto Rossellini, 1954)


Até agora será o Rossellini mais fraco a que assisti. Aprecio muito a estética noir, de reminiscências expressionistas, assim como o ambiente hitchcockiano que pontua sempre a acção. A história é interessante (que tem um curioso paralelismo com a própria relação de Rossellini e Ingrid Bergman, marido e mulher na altura) e os actores cumprem perfeitamente. O que falha então? Acabo de ler que, depois de o filme ter sido muito mal recebido nas bilheteiras em Itália, o estúdio resolveu re-editar o filme, alterando o final (para uma versão mais "feliz", com a personagem de Bergman conformada e pronta a viver pelos filhos) e acrescentando voz-off para algumas das cenas. Ora, foram esses precisamente os dois pontos que não consegui gostar em "La Paura".

04/08/2009

"Rachel Getting Married" (Jonathan Demme, 2008)


As opiniões dividem-se muito sobre o último filme de Jonathan Demme, um dos cineastas americanos mais respeitados da actualidade: uns queixam-se do trabalho de camera (é tudo handheld), da sua história e personagens alegadamente "banais"; outros reconhecem na sua simplicidade e autenticidade as suas principais forças. Identifico-me bem mais com esse segundo grupo. "Rachel Getting Married" parece-me um filme seguro de si, da sua história, das suas personagens (que elenco!). Tal como na cerimónia do casamento que surge na recta final do filme, Demme pinta aqui o retrato de uma família, uma espécie de celebração e explosão de emoções, sem deixar de parte as suas contradições e nunca tendo medo de assumir o seu lado mais "humano".

"The Limits of Control" (Jim Jarmusch, 2009)


Jarmusch tem aqui um dos seus filmes mais políticos, sempre em torno da sua personagem principal, um assassino solitário, representado friamente por Isaach De Bankolé. O filme funciona como uma música da banda Boris, que tem várias contribuições para a banda-sonora, uma espécie de drone envolvente que avança através da repetição de uma série de rituais, sem dar grandes pistas ao espectador do que realmente se está a passar. Mais do que tudo, o filme é um protesto corajoso, onde além do elenco de luxo e do trabalho notável de Christopher Doyle na fotografia, sobressai também a mestria da direcção de Jarmusch, em estilo minimalista e que pauta o filme como só os grandes mestres conseguem fazer.