
Fellini respondeu uma vez numa entrevista que o segredo para fazer um bom filme passava, inevitavelmente, pelo princípio e pelo final. Se o cineasta conseguisse convencer o seu público durante os primeiros e os últimos minutos da sua obra, o resto seria bem mais fácil e, provavelmente, conseguiria conquistar os seus espectadores. Ora, não é difícil crer que Fellini acreditava mesmo nestas suas palavras pela amostra em "Le Notti di Cabiria", o filme que antecedeu "La Dolce Vita" e que deu o reconhecimento internacional ao mestre italiano. "Cabiria" abre com uma sequência lindíssima e muito simples, que desenha desde logo, em duas ou três "pinceladas", a sua personagem principal. O final fica para a história do cinema como um dos mais belos e tocantes finais de sempre, mais uma vez uma lição de simplicidade. "Cabiria" é bem capaz de se ter tornado no meu Fellini preferido assim que vi o seu desarmante plano de fecho, enquanto Giulietta Masina nos olha directamente. É difícil lembrar-me de outra obra tão genuína e tão honesta, mesmo dentro de uma filmografia especialmente rica como a de Fellini.
