18/10/2009

"Le Notti di Cabiria" (Federico Fellini, 1957)


Fellini respondeu uma vez numa entrevista que o segredo para fazer um bom filme passava, inevitavelmente, pelo princípio e pelo final. Se o cineasta conseguisse convencer o seu público durante os primeiros e os últimos minutos da sua obra, o resto seria bem mais fácil e, provavelmente, conseguiria conquistar os seus espectadores. Ora, não é difícil crer que Fellini acreditava mesmo nestas suas palavras pela amostra em "Le Notti di Cabiria", o filme que antecedeu "La Dolce Vita" e que deu o reconhecimento internacional ao mestre italiano. "Cabiria" abre com uma sequência lindíssima e muito simples, que desenha desde logo, em duas ou três "pinceladas", a sua personagem principal. O final fica para a história do cinema como um dos mais belos e tocantes finais de sempre, mais uma vez uma lição de simplicidade. "Cabiria" é bem capaz de se ter tornado no meu Fellini preferido assim que vi o seu desarmante plano de fecho, enquanto Giulietta Masina nos olha directamente. É difícil lembrar-me de outra obra tão genuína e tão honesta, mesmo dentro de uma filmografia especialmente rica como a de Fellini.

01/10/2009

"Inglourious Basterds" (Quentin Tarantino, 2008)


Todas as vezes que Tarantino lança um novo filme no mercado, os seus críticos relançam as acusações - que os seus filmes são próprios de uma mente adolescente, desprovidos por completo de qualquer complexidade ou profundidade, contentando-se assim, acusam eles, pelo "mero" entretenimento. Muitas dessas pessoas afirmam ainda que esses filmes se esgotam numa espécie de masturbação cinéfila, tal a quantidade de referências e homenagens que o senhor faz aos filmes de género que tanto aprecia. Ora, para começar, não vejo nada de adolescente em Tarantino, pelo menos neste "Inglorious Basterds" que é possivelmente um dos seus melhores filmes. A acção (e a tão discutida "violência") por norma, é apenas o culminar e o desenlaçe final da típica cena tarantinesca. Estas assentam essencialmente no diálogo e não na acção. Neste filme isso sobressai em duas das melhores cenas que alguma fez realizou (todo o capítulo I e a cena na taberna do bar). Estas duas sequências também retratam bem o que penso sobre a natureza derivativa do cinema de Tarantino: sim, as referências aos filmes que ele tanto gosta estão lá, incluvé algumas citações bem evidentes e declaradas, mas nunca, em momento algum, nos deixa com a sensação de déjà-vu (sensação essa que hoje em dia é muito, muito fácil de encontrarmos em qualquer filme que estreie numa sala). Depois há o final, que além de inesquecível, é outro dos seus inegáveis tributos ao poder e à força do cinema, o tema que realmente une toda a sua filmografia (e que é tão "adulto" e tão "profundo" como qualquer outro tema que se preze).