02/11/2009

"The Soloist" (Joe Wright, 2009)


Robert Downey Jr. e Jamie Foxx são realmente os pontos de interesse neste filme de Joe Wright que, apesar de estar carregado de boas intenções, nunca chega realmente a descolar. O filme tem os seus momentos, mas no final acaba por não conseguir retratar de forma eficaz a verdadeira história que tenta contar - a amizade entre dois homens muito diferentes. Essencialmente, o problema está na direcção de Joe Wright, que parece sempre demasiado auto-consciente e por vezes até demasiado vistosa para seu próprio bem. Fica-se com a nítida sensação de que "The Soloist" poderia ser um filme profundamente tocante mas que, algures nesse caminho, a coisa ficou-se mesmo apenas pelas boas intenções e pelos papeis principais de encher o olho.

18/10/2009

"Le Notti di Cabiria" (Federico Fellini, 1957)


Fellini respondeu uma vez numa entrevista que o segredo para fazer um bom filme passava, inevitavelmente, pelo princípio e pelo final. Se o cineasta conseguisse convencer o seu público durante os primeiros e os últimos minutos da sua obra, o resto seria bem mais fácil e, provavelmente, conseguiria conquistar os seus espectadores. Ora, não é difícil crer que Fellini acreditava mesmo nestas suas palavras pela amostra em "Le Notti di Cabiria", o filme que antecedeu "La Dolce Vita" e que deu o reconhecimento internacional ao mestre italiano. "Cabiria" abre com uma sequência lindíssima e muito simples, que desenha desde logo, em duas ou três "pinceladas", a sua personagem principal. O final fica para a história do cinema como um dos mais belos e tocantes finais de sempre, mais uma vez uma lição de simplicidade. "Cabiria" é bem capaz de se ter tornado no meu Fellini preferido assim que vi o seu desarmante plano de fecho, enquanto Giulietta Masina nos olha directamente. É difícil lembrar-me de outra obra tão genuína e tão honesta, mesmo dentro de uma filmografia especialmente rica como a de Fellini.

01/10/2009

"Inglourious Basterds" (Quentin Tarantino, 2008)


Todas as vezes que Tarantino lança um novo filme no mercado, os seus críticos relançam as acusações - que os seus filmes são próprios de uma mente adolescente, desprovidos por completo de qualquer complexidade ou profundidade, contentando-se assim, acusam eles, pelo "mero" entretenimento. Muitas dessas pessoas afirmam ainda que esses filmes se esgotam numa espécie de masturbação cinéfila, tal a quantidade de referências e homenagens que o senhor faz aos filmes de género que tanto aprecia. Ora, para começar, não vejo nada de adolescente em Tarantino, pelo menos neste "Inglorious Basterds" que é possivelmente um dos seus melhores filmes. A acção (e a tão discutida "violência") por norma, é apenas o culminar e o desenlaçe final da típica cena tarantinesca. Estas assentam essencialmente no diálogo e não na acção. Neste filme isso sobressai em duas das melhores cenas que alguma fez realizou (todo o capítulo I e a cena na taberna do bar). Estas duas sequências também retratam bem o que penso sobre a natureza derivativa do cinema de Tarantino: sim, as referências aos filmes que ele tanto gosta estão lá, incluvé algumas citações bem evidentes e declaradas, mas nunca, em momento algum, nos deixa com a sensação de déjà-vu (sensação essa que hoje em dia é muito, muito fácil de encontrarmos em qualquer filme que estreie numa sala). Depois há o final, que além de inesquecível, é outro dos seus inegáveis tributos ao poder e à força do cinema, o tema que realmente une toda a sua filmografia (e que é tão "adulto" e tão "profundo" como qualquer outro tema que se preze).

11/09/2009

"Aguirre, Der Zorn Gottes" (Werner Herzog, 1972)


É difícil escrever o que quer que seja sobre este filme sem se falar da tempestuosa relação do cineasta alemão Herzog, com o protagonista de muitas das suas melhores obras, o actor Klaus Kinski. "Aguirre" marca a primeira colaboração destes dois homens, ambos com feitios lendários, que durante as gravações chegavam ao ponto de se ameaçarem de morte. Mas da mesma forma que se tratava de uma relação conflictuosa, era também uma relação de alto proveito artístico, como este filme tão categoricamente o comprova. As paisagens da selva peruana, filmadas como Herzog tão bem o sabe fazer, o krautrock dos Popol Vuh que dá à banda sonora uma dimensão quase apocalíptica, junto com o papel espantoso de Kinski na pele do protagonista, o louco Aguirre, tornam este filme numa experiência sensorial e emocional quase indescritível. É um objecto peculiar, não só porque Herzog mantém um constante clima de ambiguidade e mistério, mas também porque consegue ser, acima de tudo, por se tratar de um olhar complexo sobre a natureza humana. Quando assisti à cena final (que é daquelas dignas de uma antologia da 7ª arte, onde o filme claramente se trancende a si próprio), soube imediatamente que "Aguirre" é um daqueles filmes que dificilmente vou esquecer tão cedo.

09/09/2009

"The Yards" (James Gray, 2000)


Dando continuidade à minha (recente) paixão pelos últimos trabalhos de James Gray, resolvi ver o seu segundo filme "The Yards". Gray segue um pouco a linha que viria a explorar no seu filme seguinte "We Own the Night" (2007) num drama de crime, sempre a circundar as temáticas da família e da lealdade, que são já uma espécie de watermark do trabalho do realizador. Para além das performances fantásticas que consegue reunir (Gray é um realizador que sabe extrair o melhor que há nos actores com quem colabora), neste "The Yards" o que mais me impressionou foi o trabalho assombroso de fotografia, que por vezes chega quase a assumir uma linhagem expressionista (sem que isso se sobreponha à história ou às personagens). E se mais uma vez é impossível não pensarmos nos vultos do cinema que Gray, assumidamente, parece admirar, como Hitchcock, Lumet ou Scorcese, é igualmente difícil não o vermos como um dos poucos realizadores americanos da actualidade que consegue dar realmente um corpo e uma autenticidade às suas obras. Gosta claramente de importunar os seus espectadores - de os deixar desconfortáveis. Isso tudo ganha outra dimensão quando olhamos para as suas narrativas, que são muitas vezes apontadas pela crítica americana como "simplórias" ou "banais". Mas é esse um dos segredos por detrás da mestria de Gray. Tenho pena que um talento como estes seja tão desconhecido e subvalorizado.

EDIT: acabei de ler isto numa entrevista a James Gray, durante a promoção de "The Yards":

You want the illusion of simplicity (but) the hardest thing to do is a simple story unfolding with a kind of elegance. It's much easier to make a movie with kind of stylistic pyrotechnics because you can hide behind that if there's a gap in the story. But I wanted to make the film in sort of a John Ford simple style.

05/09/2009

"Fury" (Fritz Lang, 1936)


Um dos primeiros filmes de Lang em solo americano, depois de fugir a Hitler e ao regime fascista, tem vários pontos de contacto com a sua obra-prima "M" (1931), filmada ainda na sua terra mãe. Ambos acabam por ser cuidadosos estudos das massas e da forma como reagem perante (pretensas) situações de crime. Continuo a dar preferência a "M", pelo seu primor e simplicidade, onde Lang consegue estabelecer, desde a primeira cena, um ambiente envolvente e que se prolonga até ao seu final inesquecível. Neste "Fury", existem algumas falhas a nível do argumento e da história, além de que parece ser utilizada uma abordagem um pouco mais teatralizada (e mais próxima da linhagem hollywoodesca). No entanto, o filme não deixa de ser assustadoramente actual e permanece como um thriller compenetrante, que muitos dizem ser um dos grandes percursores da estética noir.

07/08/2009

"Two Lovers" (James Gray, 2008)


Na entrevista que deu ao jornal Público, James Gray defendia que o que mais lhe interessa nos seus filmes será criar uma "autenticidade emocional". Em "Two Lovers", Gray cria uma história simples (sem deixar de ser interessante) e dá corpo a essa "autenticidade" através das performances magníficas que consegue reunir - Joaquim Phoenix em especial faz o melhor (e último?) papel da sua carreira. Mas o que mais me admira neste filme é a subtileza, o engenho, a maturidade de Gray por detrás da camera, com um trabalho de mise-en-scène espantoso que nos faz, de imediato, acreditar nas suas personagens e nesta história. Sabe trabalhar a imagem, o plano e o espaço, prova disso são os vários momentos que consegue cravar na nossa memória, bem à maneira dos nomes que parece citar (sem nunca cair na armadilha da cópia) desde Coppola a Hitchcock. Com uma filmografia tão curta (conta apenas com 4 obras da a sua assinatura), James Gray assume-se cada vez mais como um dos meus realizadores de referência no panorama actual do cinema.

"La Paura" (Roberto Rossellini, 1954)


Até agora será o Rossellini mais fraco a que assisti. Aprecio muito a estética noir, de reminiscências expressionistas, assim como o ambiente hitchcockiano que pontua sempre a acção. A história é interessante (que tem um curioso paralelismo com a própria relação de Rossellini e Ingrid Bergman, marido e mulher na altura) e os actores cumprem perfeitamente. O que falha então? Acabo de ler que, depois de o filme ter sido muito mal recebido nas bilheteiras em Itália, o estúdio resolveu re-editar o filme, alterando o final (para uma versão mais "feliz", com a personagem de Bergman conformada e pronta a viver pelos filhos) e acrescentando voz-off para algumas das cenas. Ora, foram esses precisamente os dois pontos que não consegui gostar em "La Paura".