
É difícil escrever o que quer que seja sobre este filme sem se falar da tempestuosa relação do cineasta alemão Herzog, com o protagonista de muitas das suas melhores obras, o actor Klaus Kinski. "Aguirre" marca a primeira colaboração destes dois homens, ambos com feitios lendários, que durante as gravações chegavam ao ponto de se ameaçarem de morte. Mas da mesma forma que se tratava de uma relação conflictuosa, era também uma relação de alto proveito artístico, como este filme tão categoricamente o comprova. As paisagens da selva peruana, filmadas como Herzog tão bem o sabe fazer, o krautrock dos Popol Vuh que dá à banda sonora uma dimensão quase apocalíptica, junto com o papel espantoso de Kinski na pele do protagonista, o louco Aguirre, tornam este filme numa experiência sensorial e emocional quase indescritível. É um objecto peculiar, não só porque Herzog mantém um constante clima de ambiguidade e mistério, mas também porque consegue ser, acima de tudo, por se tratar de um olhar complexo sobre a natureza humana. Quando assisti à cena final (que é daquelas dignas de uma antologia da 7ª arte, onde o filme claramente se trancende a si próprio), soube imediatamente que "Aguirre" é um daqueles filmes que dificilmente vou esquecer tão cedo.

