11/09/2009

"Aguirre, Der Zorn Gottes" (Werner Herzog, 1972)


É difícil escrever o que quer que seja sobre este filme sem se falar da tempestuosa relação do cineasta alemão Herzog, com o protagonista de muitas das suas melhores obras, o actor Klaus Kinski. "Aguirre" marca a primeira colaboração destes dois homens, ambos com feitios lendários, que durante as gravações chegavam ao ponto de se ameaçarem de morte. Mas da mesma forma que se tratava de uma relação conflictuosa, era também uma relação de alto proveito artístico, como este filme tão categoricamente o comprova. As paisagens da selva peruana, filmadas como Herzog tão bem o sabe fazer, o krautrock dos Popol Vuh que dá à banda sonora uma dimensão quase apocalíptica, junto com o papel espantoso de Kinski na pele do protagonista, o louco Aguirre, tornam este filme numa experiência sensorial e emocional quase indescritível. É um objecto peculiar, não só porque Herzog mantém um constante clima de ambiguidade e mistério, mas também porque consegue ser, acima de tudo, por se tratar de um olhar complexo sobre a natureza humana. Quando assisti à cena final (que é daquelas dignas de uma antologia da 7ª arte, onde o filme claramente se trancende a si próprio), soube imediatamente que "Aguirre" é um daqueles filmes que dificilmente vou esquecer tão cedo.

09/09/2009

"The Yards" (James Gray, 2000)


Dando continuidade à minha (recente) paixão pelos últimos trabalhos de James Gray, resolvi ver o seu segundo filme "The Yards". Gray segue um pouco a linha que viria a explorar no seu filme seguinte "We Own the Night" (2007) num drama de crime, sempre a circundar as temáticas da família e da lealdade, que são já uma espécie de watermark do trabalho do realizador. Para além das performances fantásticas que consegue reunir (Gray é um realizador que sabe extrair o melhor que há nos actores com quem colabora), neste "The Yards" o que mais me impressionou foi o trabalho assombroso de fotografia, que por vezes chega quase a assumir uma linhagem expressionista (sem que isso se sobreponha à história ou às personagens). E se mais uma vez é impossível não pensarmos nos vultos do cinema que Gray, assumidamente, parece admirar, como Hitchcock, Lumet ou Scorcese, é igualmente difícil não o vermos como um dos poucos realizadores americanos da actualidade que consegue dar realmente um corpo e uma autenticidade às suas obras. Gosta claramente de importunar os seus espectadores - de os deixar desconfortáveis. Isso tudo ganha outra dimensão quando olhamos para as suas narrativas, que são muitas vezes apontadas pela crítica americana como "simplórias" ou "banais". Mas é esse um dos segredos por detrás da mestria de Gray. Tenho pena que um talento como estes seja tão desconhecido e subvalorizado.

EDIT: acabei de ler isto numa entrevista a James Gray, durante a promoção de "The Yards":

You want the illusion of simplicity (but) the hardest thing to do is a simple story unfolding with a kind of elegance. It's much easier to make a movie with kind of stylistic pyrotechnics because you can hide behind that if there's a gap in the story. But I wanted to make the film in sort of a John Ford simple style.

05/09/2009

"Fury" (Fritz Lang, 1936)


Um dos primeiros filmes de Lang em solo americano, depois de fugir a Hitler e ao regime fascista, tem vários pontos de contacto com a sua obra-prima "M" (1931), filmada ainda na sua terra mãe. Ambos acabam por ser cuidadosos estudos das massas e da forma como reagem perante (pretensas) situações de crime. Continuo a dar preferência a "M", pelo seu primor e simplicidade, onde Lang consegue estabelecer, desde a primeira cena, um ambiente envolvente e que se prolonga até ao seu final inesquecível. Neste "Fury", existem algumas falhas a nível do argumento e da história, além de que parece ser utilizada uma abordagem um pouco mais teatralizada (e mais próxima da linhagem hollywoodesca). No entanto, o filme não deixa de ser assustadoramente actual e permanece como um thriller compenetrante, que muitos dizem ser um dos grandes percursores da estética noir.